Artrite reumatoide: quando a dor no inverno não é só frio
O frio chegou, e com ele aquela dor nas juntas? É hora de investigar.
Todo inverno é o mesmo ritual: as temperaturas caem, os dedos ficam rígidos de manhã e a dor nas articulações reaparece como um velho conhecido indesejado. Muita gente atribui tudo isso ao "frio" e segue em frente. Mas e se a baixa temperatura estiver apenas revelando algo que já estava lá, como a artrite reumatoide?
A artrite reumatoide é uma doença autoimune inflamatória que afeta cerca de 1% da população mundial; no Brasil, estima-se que mais de 2 milhões de pessoas convivam com ela. Apesar disso, o diagnóstico costuma demorar anos, principalmente porque os sintomas iniciais são confundidos com outras condições muito comuns.
Neste artigo, explicamos o que é artrite reumatoide, como ela se diferencia de artrose e reumatismo popular, por que o inverno piora o quadro e, principalmente, quais exames podem ajudar o médico a chegar a um diagnóstico preciso.
Artrite reumatoide vs artrose
Antes de falar sobre sintomas e exames, é importante desfazer uma confusão muito frequente sobre a famosa “dor nas juntas”.
Artrite reumatoide
É uma doença autoimune crônica. O próprio sistema imunológico ataca a membrana que reveste as articulações (chamada de sinóvia), causando inflamação persistente. Com o tempo, essa inflamação pode destruir cartilagens e ossos. A doença afeta os dois lados do corpo de forma simétrica, por exemplo, as duas mãos ao mesmo tempo, e pode envolver órgãos como coração, pulmões e olhos.
Artrose (osteoartrite)
É o desgaste mecânico da cartilagem articular, relacionado principalmente ao envelhecimento e ao uso. Não é uma doença autoimune. A inflamação, quando presente, é secundária ao desgaste. É muito mais comum do que a artrite reumatoide e tende a afetar joelhos, quadris e coluna.
Por que a artrite reumatoide é uma doença autoimune? 
No funcionamento normal do sistema imunológico, os anticorpos identificam e atacam agentes estranhos ao corpo, como vírus e bactérias. Na artrite reumatoide, esse mecanismo falha: o sistema imune passa a produzir anticorpos contra o próprio tecido articular, tratando-o como se fosse uma ameaça.
Esse processo gera inflamação crônica dentro das articulações. A membrana sinovial (revestimento interno da articulação) fica espessada e inflamada, condição chamada de sinovite. Com o tempo, essa inflamação contínua pode erosionar a cartilagem e o osso, levando à deformidade articular.
A causa exata ainda não é completamente conhecida, mas sabe-se que fatores genéticos, hormonais e ambientais contribuem. O tabagismo, por exemplo, é um dos principais fatores de risco modificáveis identificados pela ciência.
A doença é mais frequente em mulheres (proporção de 3:1 em relação aos homens) e costuma se manifestar entre os 30 e 60 anos de idade.
Artrite reumatoide sintomas: o que o corpo tenta dizer
Os sintomas mais característicos são:
Rigidez matinal prolongada
É o sintoma mais emblemático da doença. A pessoa acorda com as articulações "travadas", rígidas, e demora mais de uma hora para recuperar os movimentos normais. Na artrose, a rigidez matinal costuma durar menos de 30 minutos.
Inflamação simétrica das articulações
A artrite reumatoide tende a afetar os dois lados do corpo ao mesmo tempo. As articulações mais frequentemente comprometidas no início são:
- Articulações dos dedos das mãos (especialmente as mais próximas da palma);
- Punhos;
- Articulações dos dedos dos pés.
Inchaço, vermelhidão e calor local
As articulações afetadas ficam visivelmente inchadas, quentes ao toque e, às vezes, avermelhadas, sinais clássicos de inflamação ativa.
Fadiga intensa e mal-estar geral
Diferente de um cansaço comum, a fadiga da artrite reumatoide pode ser debilitante, interferindo diretamente na produtividade e na qualidade de vida. Febre baixa e perda de peso também podem ocorrer nas fases mais ativas da doença.
Nódulos reumatoides
Em alguns casos, formam-se pequenos nódulos firmes sob a pele, especialmente nos cotovelos. Eles aparecem em cerca de 20 a 30% dos pacientes.
Atenção: Nenhum desses sintomas, isoladamente, confirma um diagnóstico. Se você se identificou com esse quadro, o próximo passo é buscar avaliação médica com um reumatologista.
Por que o inverno piora a dor nas articulações?
Quem tem artrite reumatoide frequentemente relata que os sintomas se intensificam no frio. Embora a relação ainda seja estudada, algumas explicações são bem aceitas pela reumatologia:
- Queda da pressão barométrica: Com o tempo frio, a pressão atmosférica tende a cair. Isso pode fazer com que os tecidos ao redor das articulações se expandam levemente, aumentando a sensação de pressão e dor;
- Vasoconstrição: O frio faz os vasos sanguíneos se contraírem para conservar calor corporal. Nas articulações já inflamadas, isso pode reduzir a circulação local e aumentar a rigidez;
- Menor atividade física: No inverno, tendemos a nos mover menos, e o sedentarismo agrava a rigidez articular;
- Sensibilidade aumentada à dor: Temperaturas baixas podem elevar a percepção de dor em tecidos já sensibilizados pela inflamação crônica.
O frio, portanto, funciona como um amplificador dos sintomas em quem já tem a doença.
Quais exames pedir para investigar artrite reumatoide?
O diagnóstico da artrite reumatoide é clínico e laboratorial, nenhum exame isolado confirma ou descarta a doença. O médico avalia o conjunto de sintomas, o exame físico e os resultados laboratoriais. Conheça os principais exames pedidos.
Fator reumatoide (FR)
O exame de fator reumatoide mede a presença de um anticorpo (IgM), que pode indicar a ativação autoimune. É positivo em cerca de 70 a 80% dos pacientes com artrite reumatoide estabelecida. Porém, pode ser positivo também em outras condições (hepatite C, síndrome de Sjögren, infecções crônicas) e até em pessoas saudáveis acima de 65 anos.
Anti-CCP (anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico)
O exame de artrite anti-CCP é mais específico do que o fator reumatoide. Sua positividade indica, com maior precisão, a presença da doença autoimune. Quando positivo em conjunto com o FR, o diagnóstico de artrite reumatoide se torna ainda mais provável. O anti-CCP também pode aparecer positivo anos antes dos primeiros sintomas, sendo útil para detecção precoce.
VHS (velocidade de hemossedimentação)
Mede o grau de inflamação no organismo. Valores elevados indicam processo inflamatório ativo, mas são inespecíficos, podem subir em qualquer inflamação.
PCR (proteína C-reativa)
Outro marcador de inflamação sistêmica. Sobe rapidamente durante as crises e cai quando a doença está controlada. É útil para monitorar a resposta ao tratamento.
Hemograma completo
Avalia os glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. Na artrite reumatoide ativa, é comum encontrar anemia inflamatória e alterações nos leucócitos.
O que significa fator reumatoide negativo?
Essa é uma dúvida muito comum. Um resultado negativo para o fator reumatoide não descarta a artrite reumatoide. Entre 20 e 30% dos pacientes com a doença confirmada têm FR negativo, são chamados de "soronegativos".
Nesses casos, o anti-CCP, os sintomas clínicos, o exame físico e, eventualmente, exames de imagem (como ultrassonografia articular ou ressonância magnética) são fundamentais para o diagnóstico.
Por isso, interpretar exames isoladamente é um erro. O médico é o profissional habilitado para interpretar exames e dar diagnósticos.
Artrite reumatoide tem cura?
Ainda não existe cura definitiva para a artrite reumatoide. Porém, é uma doença que tem tratamento eficaz e bem estabelecido.
Com o diagnóstico precoce e o tratamento adequado, que inclui medicamentos chamados DMARDs (drogas modificadoras do curso da doença), como o metotrexato, e, em casos mais graves, agentes biológicos, é possível:
- Controlar a inflamação;
- Preservar a função articular;
- Prevenir deformidades;
- Manter qualidade de vida plena.
A meta do tratamento moderno é atingir a remissão da doença (ausência de inflamação ativa) ou, pelo menos, baixa atividade inflamatória. Muitas pessoas com artrite reumatoide bem tratada levam vida completamente normal.
Cuide das suas articulações com informação e diagnóstico precoce
Dor nas articulações durante o inverno merece atenção. Quando a rigidez dura mais de uma hora pela manhã, quando as duas mãos doem ao mesmo tempo ou quando a fadiga não vai embora, pode ser que o corpo esteja pedindo mais do que um agasalho. O diagnóstico precoce da artrite reumatoide faz toda a diferença para preservar as articulações e manter a qualidade de vida.
Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira de Reumatologia. Artrite Reumatoide — Cartilha para pacientes. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/cartilhas/
- Ministério da Saúde do Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/pcdt-da-artrite-reumatoide
- Smolen JS, et al. Rheumatoid arthritis. Nature Reviews Disease Primers, 2018. DOI: 10.1038/nrdp.2018.1 Disponível em: https://www.nature.com/articles/nrdp20181
- Mota LMH, et al. Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia para o diagnóstico e avaliação inicial da artrite reumatoide. Revista Brasileira de Reumatologia, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbr/a/cGx8cNWtnB7ztKDkSNKMWMJ/?format=html&lang=pt
- Aletaha D, et al. 2010 Rheumatoid Arthritis Classification Criteria: An ACR/EULAR Collaborative Initiative. Arthritis & Rheumatism, 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20872595/