Doenças que o frio pode causar: o que muda no inverno
Prepare-se para a queda de temperaturas sabendo como se prevenir das doenças de inverno.
Com a queda da temperatura, é muito comum ver as salas de espera dos médicos ficarem mais cheias, as farmácias esgotarem antigripais. Não é coincidência nem superstição popular: o frio realmente favorece o surgimento e a propagação de diversas doenças. Mas por que isso acontece? Quais são as doenças que o frio pode causar ou agravar? E o que você pode fazer para chegar ao fim do inverno sem ficar de cama?
Neste artigo, a gente explica tudo isso de forma simples e prática, com dicas baseadas em evidências científicas.
Por que o frio aumenta o risco de doenças? A ciência explica
Antes de listar as doenças de inverno, é importante entender o mecanismo por trás delas. O frio em si não "dá" gripe, você precisa entrar em contato com o vírus para isso. Mas o inverno cria um conjunto de condições que facilita muito esse processo.
Ambientes fechados e aglomeração
Com o frio, passamos mais tempo em locais fechados e mal ventilados — ônibus, escritórios, escolas, shopping centers. Isso aumenta a concentração de vírus e bactérias no ar, tornando a transmissão muito mais fácil.
Ar seco resseca as mucosas
A umidade relativa do ar cai muito no inverno, principalmente no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Quando as mucosas do nariz e da garganta ficam ressecadas, elas perdem parte da sua função de barreira, facilitando a entrada de agentes infecciosos.
O frio altera a resposta imune local. Pesquisas publicadas no Journal of Allergy and Clinical Immunology mostram que respirar ar frio reduz a temperatura interna das vias aéreas superiores, o que diminui a atividade dos cílios, estruturas que "varrem" vírus e bactérias para fora do trato respiratório, e prejudica a resposta imunológica local.
Menor exposição ao sol reduz a vitamina D. No inverno, saímos menos, usamos mais roupas e a incidência solar é menor. A vitamina D tem papel essencial na regulação do sistema imunológico, e sua deficiência está associada a maior suscetibilidade a infecções respiratórias.
Quais são as doenças mais comuns nessa época do ano? 
Gripe (Influenza)
A gripe é causada pelo vírus Influenza e é uma das doenças mais comuns do inverno. Diferente do resfriado comum, a gripe costuma ter início abrupto, com febre alta (acima de 38°C), dores no corpo intensas, dor de cabeça, cansaço e, às vezes, sintomas gastrointestinais.
No Brasil, o pico de internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que inclui casos graves de gripe, ocorre entre maio e agosto, justamente no período mais frio do ano.
Resfriado comum
Causado principalmente pelos rinovírus, o resfriado é mais brando que a gripe, mas muito mais frequente. Tosse, coriza, espirros e leve mal-estar são os sintomas típicos. A boa notícia é que a maioria dos casos se resolve sozinha em 7 a 10 dias.
Bronquite e pneumonia
O frio agrava quadros de bronquite preexistente e favorece infecções bacterianas secundárias que podem evoluir para pneumonia, especialmente em idosos e crianças pequenas. A pneumonia é uma das principais causas de internação hospitalar no inverno no Brasil.
Asma e rinite alérgica
O ar frio e seco é um dos principais gatilhos para crises de asma e rinite alérgica. A inalação de ar mais frio do que o normal irrita as vias aéreas hiper-reativas, provocando chiado, falta de ar, coriza intensa e espirros.
Pele seca no frio
A baixa umidade do ar no inverno resseca a pele, causando descamação, coceira, fissuras e até dermatite. Pessoas com eczema (dermatite atópica) costumam apresentar piora significativa dos sintomas nessa época. Banhos quentes, um hábito muito brasileiro no frio, pioram bastante o ressecamento, pois retiram a camada protetora de gordura natural da pele.
Herpes labial
O vírus da herpes simples fica "dormente" nos gânglios nervosos e é reativado em situações de estresse do organismo, incluindo quedas de imunidade típicas do inverno. Por isso, é muito comum ver mais casos de "fogo selvagem" nos lábios durante os meses frios.
Doenças cardiovasculares
Menos comentado, mas igualmente importante: o frio causa vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos), o que eleva a pressão arterial e aumenta o esforço do coração. Isso explica por que infartos e AVC têm maior incidência no inverno, especialmente em pessoas com hipertensão ou doenças cardíacas preexistentes.
Grupos de risco: quem precisa redobrar os cuidados no inverno?
Algumas pessoas têm maior risco de desenvolver formas graves das doenças de inverno. Se você se enquadra em algum desses grupos, a atenção precisa ser redobrada:
- Idosos (acima de 60 anos): o sistema imune fica naturalmente menos eficiente com a idade, e as complicações de gripe e pneumonia são muito mais graves nessa faixa etária;
- Crianças menores de 5 anos: o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, tornando-as mais vulneráveis a infecções respiratórias;
- Grávidas: a gestação altera a imunidade e a função respiratória, aumentando o risco de complicações pela gripe;
- Pessoas com doenças crônicas: diabetes, doenças cardíacas, doenças renais, asma, DPOC e outras condições crônicas aumentam o risco de agravamento das infecções de inverno;
- Imunossuprimidos: pessoas em tratamento de câncer, transplantados ou que usam medicamentos que reduzem a imunidade têm risco muito elevado de infecções graves;
- Pessoas com obesidade: a obesidade está associada a pior resposta imune e maior risco de complicações respiratórias.
Se você faz parte de algum desses grupos, conversar com seu médico antes do inverno chegar é fundamental.
Como o sistema imunológico reage às baixas temperaturas?
O sistema imunológico é uma rede complexa de células, tecidos e órgãos que trabalham juntos para defender o organismo. No inverno, ele enfrenta alguns desafios adicionais como Redução da atividade das células NK (Natural Killer). Estudos mostram que o frio pode reduzir temporariamente a atividade dessas células, que são a primeira linha de defesa contra vírus; Menor produção de interferon. O interferon é uma proteína fundamental na resposta antiviral. Temperaturas mais baixas nas vias aéreas superiores prejudicam sua produção local, deixando o organismo menos preparado para combater vírus inalados; Deficiência de vitamina D e impacto imune. A vitamina D regula a produção de peptídeos antimicrobianos nas células das mucosas. Com menos sol e menos vitamina D circulante, esse mecanismo de defesa fica prejudicado; Estresse e sono: no inverno, muitas pessoas têm alterações no sono e maior estresse emocional, dois fatores que impactam diretamente a imunidade.
Lembrete: Consulte sempre um médico antes de iniciar qualquer suplementação ou tratamento.
Dicas práticas validadas pela ciência para proteger sua saúde
- Tome a vacina contra gripe. A vacinação é a medida mais eficaz de prevenção da influenza. Consulte as campanhas de vacinação do Ministério da Saúde para saber quando e onde se vacinar;
- Hidrate-se bem. No frio, a sensação de sede diminui, mas o corpo continua precisando de água. Manter as mucosas hidratadas ajuda na defesa contra vírus e bactérias;
- Lave as mãos com frequência. A lavagem das mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos reduz drasticamente a transmissão de vírus e bactérias;
- Ventile os ambientes. Mesmo no frio, abra as janelas por alguns minutos para renovar o ar e reduzir a concentração de agentes infecciosos;
- Durma bem. O sono é quando o organismo produz mais citocinas, proteínas essenciais para a resposta imune. Adultos precisam de 7 a 9 horas por noite;
- Cuide da alimentação. Consuma alimentos ricos em vitaminas C (frutas cítricas, acerola, kiwi) e zinco (carnes, sementes), nutrientes importantes para a imunidade;
- Hidrate a pele. Use hidratante corporal após o banho, de preferência quando a pele ainda está úmida. Evite banhos muito quentes e prolongados;
- Mantenha os ambientes com umidade adequada. Umidificadores de ar ou bacias com água próximas a fontes de calor ajudam a manter a umidade relativa do ambiente em níveis saudáveis (entre 50% e 60%).
Sinais de alerta no frio: quando os sintomas precisam de atenção médica?
A maioria das doenças de inverno é leve e se resolve com repouso e hidratação. Mas alguns sinais indicam que você precisa procurar um médico sem demora:
- Febre acima de 39°C que não cede com medicação ou que dura mais de 3 dias;
- Dificuldade para respirar ou falta de ar;
- Dor forte no peito;
- Confusão mental, sonolência excessiva ou dificuldade para acordar;
- Lábios ou unhas arroxeados (sinal de baixa oxigenação);
- Vômitos persistentes que impedem a hidratação;
- Piora rápida dos sintomas após uma breve melhora;
- Crianças com choro persistente, recusa alimentar ou respiração acelerada.
Nesses casos, não espere: procure atendimento médico imediatamente.
Exames mais procurados antes e durante o inverno
Cuidar da saúde preventivamente é muito mais inteligente do que esperar ficar doente para agir. Alguns exames são especialmente relevantes no período do inverno:
Hemograma completo: avalia as células do sangue, incluindo os glóbulos brancos (leucócitos), que são as células do sistema imunológico. Um hemograma pode indicar infecções, anemias e outros problemas que comprometem a imunidade;
Vitamina D: como explicado anteriormente, a deficiência de vitamina D é comum no inverno e impacta diretamente a imunidade. Saber seu nível permite ao médico indicar suplementação adequada se necessário;
Proteína C-reativa (PCR): marcador de inflamação no organismo. Útil para avaliar a presença de processos inflamatórios ou infecciosos, especialmente em pessoas que ficam doentes com frequência no inverno;
Glicemia de jejum e hemoglobina glicada: para diabéticos ou pessoas com risco de diabetes, o controle glicêmico é fundamental. A hiperglicemia prejudica a imunidade e aumenta o risco de infecções graves;
Perfil lipídico: o frio aumenta o risco cardiovascular. Monitorar colesterol e triglicerídeos é especialmente importante para quem tem hipertensão ou histórico de doenças cardíacas;
Espirometria (para asmáticos e portadores de DPOC): avalia a função pulmonar e ajuda a ajustar o tratamento antes do inverno, período crítico para essas condições.
O inverno não precisa ser sinônimo de doença. Com informação, prevenção e acompanhamento médico adequado, você pode atravessar os meses mais frios do ano com muito mais saúde e bem-estar.
Fontes consultadas:
- Ministério da Saúde do Brasil — Boletins de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG)
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Influenza Sazonal (Fact Sheet)
- Eccles R. "An explanation for the seasonality of acute upper respiratory tract viral infections." Acta Otolaryngol. 2002.
- Kudo E. et al. "Low ambient humidity impairs barrier function and innate resistance against influenza infection." PNAS, 2019.
- Cannell JJ et al. "Epidemic influenza and vitamin D." Epidemiol Infect. 2006.
- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Diretrizes para Asma e DPOC
- Sociedade Brasileira de Dermatologia — Cuidados com a pele no inverno