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    Do IMC ao GLP-1: como funciona o tratamento da obesidade

    Você já parou para pensar que mais de metade da população brasileira está acima do peso?

    13 Jul 2026schedule14 minutos de leitura


    Não é coincidência que os medicamentos da classe GLP-1, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) tenham se tornado a maior pauta de saúde do país nos últimos anos.


    Segundo o Ministério da Saúde, a obesidade cresceu 72% no Brasil no período entre 2006 e 2019 e o país figura entre os que mais avançaram nesse índice no mundo inteiro.

    Mas afinal, como se mede a obesidade? Quais os graus de obesidade? Como funciona o GLP-1 e o que acontece quando a pessoa para o tratamento? Este artigo responde tudo isso com base em fontes científicas, sem modismos e sem promessas impossíveis.



    IMC e graus de obesidade: entendendo os números



    O Índice de Massa Corporal (IMC) é uma das ferramentas usada na prática clínica para avaliar se o peso de uma pessoa está adequado para sua altura. O cálculo é simples:


    IMC = peso (kg) ÷ altura² (m)


    Por exemplo: uma pessoa de 80 kg e 1,70 m tem IMC de 27,7 kg/m².



    Classificação do IMC


    Conforme o site do Ministério da Saúde, a classificação do IMC em adultos é dada por:


    • Abaixo do peso: IMC abaixo de 18,5 kg/m²;
    • Peso adequado: IMC de 18,5 a 24,9 kg/m²;
    • Sobrepeso: IMC de 25 a 29,9 kg/m²;
    • Obesidade grau I (leve): IMC de 30 a 34,9 kg/m²;
    • Obesidade grau II (moderada): IMC de 35 a 39,9 kg/m²;
    • Obesidade grau III (grave ou mórbida): IMC de 40 kg/m² ou mais.


    É importante entender que o IMC é uma ferramenta de triagem, não de diagnóstico definitivo. Ele pode indicar risco aumentado para doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e apneia do sono, mas sempre precisa ser avaliado por um médico em conjunto com outros exames e histórico clínico.



    Novos critérios diagnósticos para identificação de obesidade obesidade tratamento 2026



    Desde 2025, a Lancet Diabetes & Endocrinology Commission e cirurgiões da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) passaram a recomendar novos parâmetros diagnósticos para a obesidade.


    Os especialistas definiram 18 critérios diagnósticos para identificar quando a obesidade deve ser considerada uma doença em adultos e 13 critérios específicos para crianças e adolescentes.


    O relatório, publicado pela revista científica The Lancet, também propõe uma distinção entre obesidade clínica e obesidade pré-clínica. A obesidade clínica é caracterizada pela presença de sinais objetivos de comprometimento da saúde ou de órgãos e sistemas, enquanto a obesidade pré-clínica corresponde ao excesso de gordura corporal sem manifestações clínicas evidentes.


    Para chegar a essas definições, os especialistas utilizaram o método Delphi, uma técnica baseada na construção de consenso entre especialistas. O documento reforça que o diagnóstico deve se basear na confirmação do excesso de gordura corporal e na avaliação do impacto da condição sobre a saúde e as atividades do dia a dia.


    Seguem abaixo os 18 critérios retirados na íntegra do site da SBCBM.



    Confira os sinais da obesidade clínica em adultos:


    1. Dores de cabeça recorrentes e perda de visão: às vezes, têm a ver com a pressão intracraniana aumentada;


    2. Apneia do sono: quando você se deita e dorme, a gordura em excesso no abdômen e na garganta faz o ar ter de encontrar resistência para passar. A respiração sofre breves (e ruidosas) interrupções;


    3. Falta de ar: ela mostra que os pulmões e o músculo da respiração, que é o diafragma, têm dificuldade para se expandir;


    4. Insuficiência cardíaca de fração reduzida: o coração não se contrai direito para bombear o sangue;


    5. Fadiga e inchaço nas pernas: esses sintomas podem indicar outro tipo de insuficiência cardíaca, a de fração preservada. Nela, o coração não relaxa direito. O bombeamento do sangue também fica prejudicado;


    6. Palpitações e ritmo cardíaco irregular: são sinais de arritmias;


    7. Hipertensão pulmonar: quando sobe demais a pressão da artéria que leva o sangue do coração até os pulmões para ser oxigenado;


    8. Trombose venosa: quando surgem coágulos nas veias das pernas;


    9. Hipertensão: isto é, pressão sanguínea acima dos valores saudáveis;


    10. Alterações metabólicas: quando o exame de sangue acusa aumento do colesterol LDL ou dos triglicérides ou, ainda, dos níveis de glicose, por exemplo;


    11. Doença hepática gordurosa: quando exames de imagem encontram gordura infiltrada no fígado, o que é capaz de inflamá-lo;


    12. Excesso da proteína albumina na urina: este é um dos sintomas de rins que não estão funcionando a contento;


    13. Escapes de xixi: se os episódios de incontinência urinária se tornam frequentes;


    14. Menstruação irregular, falta de ovulação e síndrome dos ovários policísticos: são sinais de problemas reprodutivos em mulheres;


    15. Deficiência de testosterona nos homens e baixa produção de espermatozoides: indicam problemas reprodutivos no público masculino;


    16. Dores nos joelhos e/ou na bacia: acusam problemas articulares;


    17. Linfedema: causa inchaços e dores crônicas;


    18. Limitações em atividades básicas do dia a dia: se a falta de mobilidade dificulta tarefas como tomar banho, vestir-se e outras;


    Nas crianças e nos adolescentes, vale lembrar, são 13 critérios, muitos deles em comum com a lista dos mais velhos.


    O tratamento da obesidade deve ser individualizado e geralmente combina mudanças no estilo de vida, acompanhamento multiprofissional, medicamentos e, em alguns casos, cirurgia. Por isso, agora vamos falar das canetas emagrecedoras e como elas vêm afetando os pacientes em todo o país.



    O que são os medicamentos GLP-1?



    GLP-1 é a sigla para Glucagon-Like Peptide-1, um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Ele tem um papel fundamental no organismo: sinalizar ao cérebro que a pessoa está satisfeita, estimular a produção de insulina pelo pâncreas e retardar o esvaziamento gástrico.


    Os medicamentos da classe GLP-1, chamados tecnicamente de agonistas do receptor de GLP-1, imitam a ação do hormônio GLP-1 natural e potencializam suas respostas no organismo. Eles "encaixam" nos mesmos receptores do GLP-1 natural e potencializam essas respostas no corpo.


    Os mais conhecidos são a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). Saiba mais sobre cada uma.



    Semaglutida



    A semaglutida é o princípio ativo do Ozempic (aprovado no Brasil para diabetes tipo 2) e do Wegovy (aprovado para obesidade). Ela é um agonista puro do receptor de GLP-1.


    Em estudos clínicos, pessoas com obesidade que usaram semaglutida em dose alta (2,4 mg semanal) perderam, em média, 13,7% do peso corporal ao longo de 72 semanas, um resultado historicamente inédito para um medicamento não cirúrgico.


    Em maio de 2026, a Anvisa aprovou o Ozivy, da EMS, o primeiro medicamento nacional à base de semaglutida, após a expiração da patente. Isso tende a reduzir o preço da semaglutida no Brasil, que hoje pode ultrapassar R$ 1.000 por mês.



    Qual o preço do Ozempic no Brasil em 2026?


    O Ozempic (semaglutida 1 mg para diabetes) e o Wegovy (semaglutida 2,4 mg para obesidade) custavam entre R$ 800 e R$ 1.500 mensais no Brasil em 2025. Com a aprovação do Ozivy (semaglutida nacional da EMS) em maio de 2026, a expectativa é de redução de 30% a 60% nos preços ao longo dos próximos meses. Consulte farmácias credenciadas para valores atualizados.



    Tirzepatida



    A tirzepatida (Mounjaro) vai um passo além: ela é um agonista duplo, que age simultaneamente nos receptores de GLP-1 e GIP (outro hormônio intestinal ligado ao metabolismo da glicose e gordura).


    Essa dupla ação pode explicar os resultados ainda mais expressivos: em estudos de 72 semanas, a tirzepatida promoveu redução média de 20,2% do peso corporal, superior à semaglutida no mesmo período.


    A Anvisa aprovou a tirzepatida para obesidade em junho de 2025, e para tratamento da apneia obstrutiva do sono em outubro de 2025.



    Qual a diferença entre semaglutida e tirzepatida para emagrecer?


    Ambas pertencem à classe dos agonistas de GLP-1, mas a tirzepatida age em dois receptores (GLP-1 e GIP), enquanto a semaglutida age em apenas um (GLP-1). Em estudos comparativos, a tirzepatida promoveu maior perda de peso (média de 20,2% vs. 13,7% em 72 semanas). Porém, a escolha entre elas depende do perfil clínico do paciente e da avaliação médica individualizada.



    Como o GLP-1 funciona no organismo



    Entender como funciona o GLP-1 ajuda a desmistificar esses medicamentos. Não se trata de "injeção que emagrece por milagre". O mecanismo envolve várias frentes:


    1. Saciedade central: o GLP-1 age no hipotálamo (região do cérebro que regula fome e saciedade), reduzindo o apetite e o desejo de comer;
    2. Insulina: estimula a secreção de insulina pelo pâncreas somente quando a glicose está elevada, reduzindo o risco de hipoglicemia;
    3. Esvaziamento gástrico: retarda o tempo que o alimento fica no estômago, aumentando a sensação de saciedade após as refeições;
    4. Glucagon: inibe a liberação de glucagon (hormônio que eleva a glicose no sangue), ajudando no controle glicêmico.


    Juntos, esses efeitos reduzem significativamente a ingestão calórica, sem que a pessoa precise fazer esforço extremo de força de vontade.


    Isso é relevante pois a obesidade tem componentes biológicos e hormonais que vão muito além do "comer menos e se exercitar mais".



    Quem tem indicação médica para usar GLP-1



    Os agonistas de GLP-1 não são para qualquer pessoa que deseja perder alguns quilos. A indicação médica depende de critérios clínicos bem estabelecidos.


    De forma geral, a indicação pode existir para:


    • Adultos com obesidade que não responderam adequadamente a mudanças de estilo de vida;
    • Adultos com sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia ou apneia do sono;
    • Pacientes com diabetes tipo 2 que se beneficiam do controle glicêmico adicional.



    Quem não deve usar



    Existem contraindicações importantes. Esses medicamentos não devem ser usados por pessoas com:


    • Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide;
    • Síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM-2);
    • Pancreatite crônica ou histórico de pancreatite aguda;
    • Gravidez ou amamentação.


    A avaliação deve ser feita por um endocrinologista ou médico especialista em obesidade. O uso sem acompanhamento médico pode ser bastante perigoso.



    Efeitos colaterais que você precisa conhecer



    Como qualquer medicamento, a semaglutida e a tirzepatida têm efeitos colaterais. Os mais comuns incluem: náuseas (o mais frequente, especialmente nas primeiras semanas), diarreia ou constipação, dor ou desconforto abdominal, vômitos (menos comum), refluxo.


    Esses efeitos tendem a ser mais intensos no início do tratamento e costumam diminuir com a adaptação do organismo. Por isso, a dose é iniciada baixa e muda conforme indicação médica, de forma gradual.


    Em alguns casos, geralmente raros, efeitos mais sérios podem ocorrer, como pancreatite. Por isso, qualquer sintoma incomum deve ser reportado ao médico imediatamente.


    Vale lembrar que estes medicamentos devem ser adquiridos em farmácias e com receita médica. Em 2026, a Anvisa e a Polícia Federal intensificaram operações contra a fabricação, importação e venda irregular de GLP. O site do governo ressalta que, mesmo sem confirmação da causa, o crescente uso de produtos irregulares indica risco à saúde da população, e que já foram identificados desfechos graves, inclusive óbitos.



    Peso após descontinuação: o que a ciência diz



    Uma das perguntas mais frequentes sobre esses medicamentos é: e se eu parar de tomar? A resposta da ciência exige honestidade e cautela.


    Um estudo do ensaio clínico STEP 1, conduzido pela Novo Nordisk e publicado em 2022, mostrou que pacientes que interromperam a semaglutida recuperaram cerca de dois terços do peso perdido ao longo de 52 semanas após a descontinuação mesmo mantendo hábitos de alimentação saudável e atividade física.


    Uma revisão sistemática publicada em 2025 confirmou esse padrão de reganho após a interrupção nas duas moléculas (semaglutida e tirzepatida).


    O que isso nos diz? A obesidade é uma doença crônica, como hipertensão ou diabetes. Isso significa que, para muitos pacientes, o tratamento precisa ser contínuo ou acompanhado de estratégias robustas de manutenção.


    Parar o medicamento sem um plano estruturado tende a resultar em reganho de peso. No entanto, isso não invalida o tratamento, mas reforça a importância do acompanhamento médico de longo prazo e de uma abordagem que combine medicamento, dieta, exames para acompanhar a saúde e mudança de comportamento.



    Acompanhamento do tratamento



    Quem usa medicamentos da classe GLP-1 (como Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Rybelsus e Saxenda) não precisa necessariamente de um "pacote obrigatório" de exames, mas existe um acompanhamento laboratorial bastante recomendado, especialmente para monitorar eficácia, segurança e possíveis deficiências nutricionais.



    Antes de iniciar o tratamento


    Geralmente, o endocrinologista busca acompanhar a saúde metabólica do paciente bem como sua saúde geral, caso a caso. Alguns dos exames que podem ser solicitados nesse momento são:


    • Glicemia de jejum;
    • Hemoglobina glicada (HbA1c);
    • Insulina (em alguns casos);
    • Perfil lipídico (colesterol e triglicerídeos);
    • Função hepática (TGO, TGP, GGT);
    • Função renal (creatinina e ureia);
    • TSH e T4 livre (avaliação da tireoide);
    • Hemograma completo.



    Durante o uso do GLP-1


    Acompanhamento periódico a cada 3 a 12 meses, dependendo do caso:


    Controle metabólico


    • Glicemia de jejum;
    • Hemoglobina glicada;
    • Insulina (quando indicado);
    • Perfil lipídico.


    Função renal


    • Creatinina;
    • Ureia;
    • Taxa de filtração glomerular estimada (TFGe).


    Isso é importante porque náuseas, vômitos ou redução importante da ingestão de líquidos podem favorecer desidratação.


    Função hepática


    • TGO (AST);
    • TGP (ALT);
    • GGT.



    Avaliação nutricional


    Pessoas que perdem peso rapidamente podem desenvolver carências nutricionais. Por isso, alguns exames podem ser solicitados por médicos e nutricionistas para avaliação nutricional e acompanhamento nutricional.


    Os exames mais utilizados são:


    • Vitamina B12;
    • Vitamina D;
    • Ferro sérico;
    • Ferritina;
    • Saturação de transferrina;
    • Ácido fólico;
    • Zinco;
    • Magnésio;
    • Albumina;
    • Proteínas totais e frações.



    A saúde metabólica exige cuidado e ajuda



    Sobrepeso e obesidade raramente têm uma causa única. A obesidade é uma doença crônica multifatorial que necessita acompanhamento médico especializado e o primeiro passo para um tratamento eficaz é conhecer o que está acontecendo no organismo do paciente.


    Nos últimos anos, os avanços da medicina ampliaram as possibilidades de diagnóstico e tratamento, permitindo abordagens mais personalizadas e eficazes.


    Com exames adequados, medicamentos como o GLP-1 e orientação profissional, é possível estabelecer metas realistas e iniciar um tratamento baseado em evidências, promovendo mais saúde, bem-estar e qualidade de vida a longo prazo.



    Fontes consultadas


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